Nossas famílias mudaram, o que fazemos agora?

A memória de uma família infestada pelo extremismo

BRASIL, 2016 – Quando eu era criança, lembro de assistir TV ao lado da minha mãe e avó materna à noite. Era uma pequena tradição que tornava os fins de cada dia mais tranquilos. Pelo que me lembro, tudo parecia comum, apenas pessoas assistindo o Jornal Nacional e a novela das nove (Velho Chico, na época) pela Globo. Até que tudo mudou.

Lembro que em uma dessas noites, o Jornal Nacional estava realizando uma cobertura especial de diversas manifestações contra o governo, que na época era da ex-presidente Dilma (na época eu não sabia o motivo das manifestações).

Uma das cenas que mais me marcou foi ver tantas camisetas verde e amarela em um único lugar. Sendo criança, eu questionei minha mãe e avó: “por que eles estão fazendo isso, não estamos nem em clima de Copa do Mundo para estarem vestidos assim!?”.

Com uma espécie de desinteresse, ou ignorância, elas responderam: “pois é, nem a gente entende”. Até onde me lembro, essa foi a última vez que recebi uma resposta “tranquila” ao questionar algo relacionado a política.

“A Família”, 1925, de Tarsila do Amaral

Premonição

Sabemos bem os eventos que se sucederam após aquele dia: o impeachment da ex-presidente, a eleição golpista de Temer, a ascensão da extrema direita na figura de Bolsonaro e, para piorar, a pior crise sanitária do nosso século durante um governo pregador do negacionismo.

Mas esse texto não é uma revisão da história recente do Brasil e sua política. É um texto sobre família, e o que perdemos com o extremismo político que se alastrou pelo país.

Depois da noite de manifestações que assisti na TV. Minha família se tornou diferente. De repente, assuntos como “o Triplex de Lula”, “a Lava Jato” e o “escândalo de corrupção da Petrobras” viraram pautas nas conversas dos churrascos de domingo, das jantas esporádicas nos dias de verão e de qualquer outro evento familiar. 

Não era só minha mãe ou avó quem trazia o assunto para a roda. Aos poucos, meus tios, tias, e parentes que eu nem sei dizer o grau de parentesco também jogavam suas opiniões dentro do balde. 

No início, eu, no meu pedestal de privilégios e desinteresse pelo que acontecia ao meu redor, tentei ignorar. Mas não tomei essa decisão sem ter motivos. Lembro que nessa época entendi como as palavras podem ser ditas com ódio e criar desavenças. 

A cada dia que passava, o tom dos diálogos era diferente. Partia de uma “crítica”, ou ataque, a gestão do governo e depois se estendia a ofensas gerais aos políticos do país, até então sem qualquer menção às famosas palavras “direita, esquerda, comunismo, etc…”.

2018

Quando Bolsonaro chegou ao poder, em 2018, senti que aqueles que tinham vergonha de explanar suas “opiniões de direita” tinham se soltado. Eles pareciam ser a maioria. Os que estavam no topo, e iriam garantir que tudo e todos que não fossem condescendentes com eles fosse afastado, para não usar outras palavras.

Naquela época, os churrascos de família tornaram-se sinônimo de exaustão mental para mim. Ter que ouvir pessoas reafirmando posicionamentos de ódio, homofobia e racismo tornou difícil manter as tradições, bem como o momento de assistir televisão com minha mãe e avó, que já não fazíamos mais na época.

Em meio a isso, no auge dos meus 15 anos, me blindei ainda mais das coisas que aconteciam no resto do país. Me sentia egoísta, mas também tinha medo de perder quem eu amava. Infelizmente, elas já tinham sido levadas por algo maior do que um adolescente. 

A crise

A pandemia foi um dos piores momentos. Quando soubemos dos primeiros casos em solo brasileiro e as escolas anunciaram o fechamento, por 15 dias, em março de 2020, eu pensei que poderia proteger minha família, mas não consegui.

Fiquei angustiado esperando o primeiro pronunciamento de Bolsonaro. Tinha medo do estrago que ele faria (e fez). Lembro até hoje: era dia 24 de março. Vi anúncios sobre o pronunciamento, liguei a TV e ouvi as palavras “histórico de atleta, gripezinha e resfriadinho”.

O que mais doeu foi ver minha família rindo e, de certa forma, apoiando a irresponsabilidade de Bolsonaro diante de uma nação sem rumo para enfrentar da maior crise sanitária do nosso século.

Preso em casa, por quase dois anos, tentei quebrar minha bolha, que eu mesmo impus, e entender o que acontecia ao meu redor (Ironicamente, no momento onde todos tínhamos que ficar isolados).

As conversas em família não mudaram, elas continuaram exaltando Bolsonaro e suas ideologias da extrema direita. Com a chegada da pandemia, o negacionismo ficou mais forte. Fiz o máximo que pude para tentar explicar a gravidade da doença. 

Lembro que mostrava a eles vídeos do Dr. Drauzio Varella, o famoso médico que aparecia no Fantástico (minha avó amava ele), mas eles se recusaram a ouvir e o chamaram de “médico da Globo Lixo”.

A briga pelo uso de máscaras foi ainda maior. Por um momento, minha mãe, que parecia me ouvir de vez em quando, respeitava minha opinião sobre as medidas profiláticas contra a Covid. Mas isso não durou muito. Não consegui salvá-la também.

Quando as vacinas chegaram, fiquei tão feliz. Lembro que a liberação para pessoas de 18 anos chegou algum tempo depois e, quando chegou na minha cidade, fiquei 12 horas na fila para receber a minha dose. Fui o sétimo da fila e dormi por um dia inteiro depois.

Fui um dos únicos que se vacinou na minha família. Minha mãe se vacinou por causa do trabalho. Alguns outros parentes fizeram o mesmo. De um jeito ou de outro, lembro que fiquei feliz por eles estarem seguros.

Apesar disso, as coisas não ficaram mais fáceis. O extremismo devastou as últimas estruturas que nos uniam. Hoje, não falo com esse lado da família e me questiono se eles ainda pensam da mesma forma.

Também me pergunto até hoje se, devido a minha pergunta naquela noite em 2016, eu talvez tenha incentivado a minha mãe e avó a quererem entender os motivos da indignação daqueles manifestantes depredadores e, por causa disso, elas tenham caído nas garras do extremismo, ignorância política e ideológica, e se tornado o que se tornaram.

Recorrentemente penso como seria se fosse diferente. Enquanto não posso mudar o que minha família se tornou, me pergunto: o que faço agora?

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