Sonhos de Trem, de Clint Bentley, é uma reflexão sobre o mistério da vida. Ver esse longa me remeteu às situações mais difíceis e, ao mesmo tempo, aos momentos em que tudo faz sentido.
Desde as coisas mais tristes, como perder alguém que amamos, até uma simples volta pra casa depois de um bom dia. Trabalho, dor, perda, luto, tempo, culpa, trauma, superação, felicidade e repetição… São coisas e sentimentos que estão presentes na obra e que trazem à reflexão sobre a nossa existência. Qual o sentido de coisas ruins e boas acontecerem conosco?
Essa é a grandeza de Sonhos de Trem: mostrar que a vida não é, necessariamente, boa ou ruim, ela apenas “É”. A vida e seu grande segredo. Um ciclo complexo que o ser humano tenta entender e colocar em palavras o que significa, às vezes impossível de ser racionalizado, apenas sentido. Por isso o final desse longa é tão poderoso. Robert sente. Nós sentimos.
Temporada de premiações e mais um representante brasileiro.
O filme, comprado pela Netflix no festival de Sundance em janeiro de 2025, estreou no dia 21 de novembro no streaming. O filme independente saiu de azarão para quatro indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor Roteiro Adaptado (adaptação do romance homônimo, com mesmo título, de Denis Johnson), Melhor Canção Original e Melhor Fotografia, para o nosso brasileiro Adolpho Veloso.
Algo que nos faz entender a potência do filme é o casamento da proposta narrativa com a fotografia. O silêncio da história junto da contemplação das imagens que parecem retratos fotográficos a cada sequência ajudam a trazer a reflexão para os temas subjetivos propostos.
Na entrevista de Adolpho Veloso para a Harper’s Bazaar Brasil conseguimos entender seu entrosamento com o diretor Clint Bentley e a proposta diferenciada da fotografia: “A gente já tinha uma relação muito boa desde Jockey (…). Eu estava com muita vontade de trabalhar com ele de novo. Felizmente, isso era recíproco. Assim que ele começou a adaptar Sonhos de Trem, me mandou as primeiras versões. Começamos a conversar muito cedo, bem antes da filmagem: no início, sobre coisas mais gerais e como transportar aquela história para a tela – inclusive a necessidade de criar espaço para os silêncios (…). Começamos a olhar fotos de trabalhadores da construção de ferrovias e lenhadores da época, além de outras influências, mas voltávamos sempre para o enquadramento “janela de foto”, o 3:2, que usamos na maior parte do filme. O propósito era ativar, de forma sutil, essa associação que a gente tem entre esse formato de foto e a memória (…).”
Veloso estar indicado nesta categoria mostra que o Brasil tem talento em todas as frentes da produção audiovisual. Um trabalho delicado e majestoso.
Sonhos de Trem está disponível na Netflix.
Cotação: 9/10.

