O depoimento de um homem preso pelo ICE nos Estados Unidos

Em meio aos protestos, o relato foi concedido ao fotojornalista Jordyn Gualdani

Jan. 24, 2026 Minneapolis, USA. Foto: Jordyn Alexander Gualdani

Minha última mensagem trocada com Jordyn Gualdani, o fotojornalista que correspondeu ao folhetim durante sua cobertura das ações dodo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) em Minneapolis, nos Estados Unidos, foi no dia 23 de janeiro de 2026. No dia seguinte, no sábado (24), Minneapolis presenciou um dos maiores protestos organizados contra o ICE.

Com temperaturas abaixo dos 29 graus Celsius, cerca de 50 mil pessoas foram às ruas e expressaram indignação contra as táticas violentas do serviço. As manifestações nasceram após o assassinato de Renee Good, uma mulher americana de 37 anos que foi morta por um agente do ICE no dia 7 de janeiro de 2026. Quase 20 dias após o acontecimento, o grande protesto ocorreu e outro assassinato foi cometido.

O enfermeiro Alex Pretti, também de 37 anos, foi morto por agentes do ICE durante as manifestações. As imagens de sua morte rodaram o mundo após o governo estadunidense afirmar que Alex “se aproximou” de agentes da Patrulha de Fronteira com uma pistola semiautomática de 9 milímetros. No entanto, diversos vídeos, de diferentes ângulos da cena, não revelaram a presença da arma.

Alex havia participado das primeiras manifestações após a morte de Renee. Segundo seu pai, Michael Pretti, “ele se importava muito com as pessoas e estava muito chateado com o que estava acontecendo com o ICE, como milhões de outras pessoas”.

Ele era enfermeiro de terapia intensiva em um hospital de veteranos. Ele deixa uma memória carinhosa no coração de quem conheceu. Segundo sua vizinha, Sue Gitar, “ele era uma pessoa maravilhosa e tinha um grande coração”.

Homenagem a Alex Pretti após ele ser morto. Foto: Adam Gray/Associated Press

Nesse clima de tristeza e impunidade, o fotojornalista retomou o contato comigo no domingo (25). Apesar das circunstâncias, Jordyn seguiu seu trabalho jornalístico e conseguiu recolher o depoimento de um homem latino de 23 anos que chegou aos Estados Unidos quando tinha 14, quando solicitou asilo.

A fonte, que pediu para não ser identificada, foi detida do lado de fora do seu local de trabalho no dia 8 de janeiro de 2026, um dia após a morte de Renee. Ele, que tem o sonho de se tornar fuzileiro naval nas Forças Armadas dos EUA, conheceu Jordyn por meio de um grupo que presta assistência às pessoas detidas pelo ICE.

A entrevista com o homem, que iremos chamar de José*, ocorreu em uma van de um dos voluntários do grupo. O momento foi breve, durou 13 minutos, e as perguntas foram diretas. Ainda assim, isso não impediu que o depoimento fosse profundo e alarmante.

A entrevista

José* começa relembrando o momento em que foi preso pelos agentes do ICE. Segundo ele, veículos comuns, sem identificação policial visível, cercaram seu carro ainda no estacionamento. “Assim que entrei no carro, eles fecharam tudo. Vi uns cinco agentes correndo em minha direção”, relata. Ele diz que tentou explicar sua situação migratória e apresentou documentos que comprovavam seu pedido de asilo, mas afirma que os agentes se recusaram a considerar as informações. “Eles disseram que não se importavam com meu status.”

José* afirma que teve todos os pertences recolhidos no momento da detenção, incluindo celular e documentos de identidade. Parte dos itens foi devolvida após a liberação, mas ele diz que não recebeu de volta sua identidade. “Tenho meu número de seguridade social, minha permissão de trabalho e só o cartão de débito”, relata.

As condições no centro de detenção de Whipple, em Minneapolis, ocupam a parte mais extensa do depoimento. Segundo ele, os detidos permaneciam em celas superlotadas, com luzes acesas durante todo o tempo, sem acesso a banho, higiene básica ou informação sobre o horário. “A gente quase não recebia comida. Era um sanduíche e uma maçã. Você não sabe que horas são. Não consegue dormir”, diz. O banheiro, segundo ele, ficava dentro da cela, sem qualquer privacidade, sendo usado diante de dezenas de pessoas.

Após três dias, o jovem foi transferido para uma cadeia local, onde permaneceu por cerca de duas semanas. Ele afirma que as condições eram diferentes, mas faz questão de relativizar. “Era melhor, mas ainda assim é prisão. Quando você perde a liberdade, aprende a valorizar coisas básicas, como uma cama, comida, roupa.”

José* também relata ter presenciado situações de negligência médica. Segundo ele, pessoas que reclamavam de dor eram retiradas da cela por poucos minutos e devolvidas sem acompanhamento adequado. “Teve um homem que voltou gritando de dor. Eles simplesmente empurraram ele pra dentro e fecharam a porta.”

José* afirma que não presenciou ameaças diretas por parte dos agentes, mas diz que o clima dentro das celas era de medo e resignação. “As pessoas estavam derrotadas. Ninguém queria discutir, ninguém queria falar nada.” Ele relata, no entanto, ter ouvido histórias de outros detidos que sofreram agressões físicas no momento da prisão, especialmente aqueles que tentaram correr ao se assustarem com a abordagem. “São homens mascarados, carros comuns, vidros escuros. Você não vê distintivo. Dá medo.”

De acordo com o depoimento, muitos dos detidos eram transferidos repetidamente entre centros em diferentes estados, sem explicações formais. José* diz ter conhecido pessoas que passaram por unidades em Minnesota, Texas e Louisiana em poucos dias. “Eles só vão te movendo de um lugar para o outro. Sem resposta, sem informação.”

Ao falar sobre o perfil das pessoas presas, José* é enfático. Ele afirma que a maioria não tinha antecedentes criminais e estava trabalhando no momento da abordagem. “Setenta, oitenta por cento eram trabalhadores. Pessoas com família, filhos, problemas de saúde.” Para ele, há uma distância clara entre o discurso oficial e a prática. “Disseram que iam atrás de criminosos, mas não é isso que está acontecendo. Estão pegando pessoas que parecem comigo.”

Questionado sobre o futuro, José* hesita. Antes da detenção, ele conversava com um recrutador das Forças Armadas e tinha o desejo de se tornar fuzileiro naval. “Eu queria servir. Queria retribuir as oportunidades que esse país me deu”, diz. Agora, no entanto, afirma que não sabe mais se esse plano faz sentido. “As pessoas aqui não me veem como pessoa.”

Ainda assim, ele faz questão de afirmar que não guarda ressentimento contra o país. “Eu amo esse país. Ele me deu escola, trabalho, a chance de aprender uma nova língua.” A crítica, segundo ele, é direcionada às práticas adotadas nas operações migratórias. “O que está acontecendo não é humano.”

A entrevista é interrompida quando um familiar chega para buscá-lo. Por segurança, o grupo decide mudar de local, afastando-se da área próxima ao centro de detenção.

O áudio termina com o grupo se despedindo de José* e agradecendo por sua coragem e disposição para falar sobre o que vivenciou.

O folhetim tem acompanhado o caminho de Jordyn em Minneapolis desde o dia 19 de janeiro de 2026. Abaixo, é possível conferir as primeiras reportagens publicadas e uma análise sobre o atual contexto estadunidense.

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